[TCC] COMO ESCREVER: Metodologia

Tempo de leitura: 7 minutos

⇯ Apesar do conteúdo da seção de metodologia (“methodology” ou “materials and methods”) de um artigo científico ser em princípio óbvio, na prática adotam-se diferentes estilos e alguns prejudicam o entendimento do artigo. Além do mais, existem outras questões cuja resposta não é tão óbvia, como por exemplo: qual o nível de detalhe a ser apresentado?

Em geral, a seção de metodologia descreve os equipamentos, amostras e procedimentos usados para obter os resultados apresentados no artigo. O nível de detalhe deve ser suficiente para um especialista na área poder reproduzir os resultados obtidos. Portanto, todos os detalhes experimentais e análises que podem afetar os resultados devem ser apresentados e discutidos. Esse critério é um bom guia para julgar se o conteúdo da metodologia está adequado.

Do ponto de vista estrutural, alguns autores preferem uma descrição geral dos métodos, enquanto outros preferem descrever o procedimento usado em cada experimento específico. Vamos discutir um pouco mais esses dois estilos.

Metodologia como descrição geral

Uma opção é usar a seção de metodologia para descrever os equipamentos, amostras e processos apenas de forma geral, sem especificar como cada um se aplica aos experimentos individuais.

Na seção de resultados, o autor pode discutir brevemente como os instrumentos foram usados para obter os resultados que estão sendo apresentados.

Fazendo uma analogia com um carpinteiro escrevendo um artigo, na metodologia ele descreveria quais as ferramentas usadas (e.g., tipo e fabricante do martelo, furadeira, serra, morsa, instrumentos de medida etc.), ressaltando a função delas para a tarefa em questão, mas sem detalhar passo-a-passo como essas ferramentas foram usadas para construir cada objeto.

Nos resultados, ele discutiria como essas ferramentas foram usadas para construir, por exemplo, o armário (isto é, o resultado) e apresentaria as características do armário construído.

Veja esses exemplos do que poderia ser apresentado na metodologia e nos resultados:

Metodologia: “All samples were irradiated with beta rays from a 90Sr/90Y source delivering a dose rate of 100 mGy/s, calibrated against the National Institute of Standards and Technology using to the protocol described by Doe et al. (1983). Thermoluminescence measurements were carried out using a Risoe TL/OSL reader (model TL/OSL-DA-15, Risoe National Laboratory, Roskilde, Denmark) at a heating rate of 1 °C/s using nitrogen gas and using approximately 10 mg of powder deposited in steel cups.”

Resultados: “To obtain the dose response, the samples were irradiated with doses in the 100 mGy – 100 Gy range and the thermoluminescence was read immediately following irradiation. For each dose, five aliquots were used to estimate the uncertainties in the measurements. The results presented in Fig. 1 show that the response is linear in the range investigated and…”

A vantagem deste tipo de estrutura é que ela permite ao leitor já familiar com os equipamentos e procedimentos (ou simplesmente não interessado nos detalhes) entender os resultados sem necessariamente ler a metodologia.

Se o leitor tiver interesse, ele pode sempre consultar a metodologia para entender melhor o tipo de equipamento usado ou como os dados foram analisados.

Se for esse o estilo, organize a metodologia (e.g. Seção 2) em sub-seções de acordo com instrumento ou experimento, como por exemplo:

2.1.Samples

2.2.X-Ray Diffraction Analyses

2.3.Thermoluminescence Measurements

2.4.Data Analysis

2.5.Etc.

Metodologia como descrição específica dos experimentos

Outra opção para a metodologia é descrever cada experimento realizado em detalhe, além da descrição geral das amostras e equipamentos usados. Nesse caso a seção de resultados apresenta apenas os resultados e sua interpretação.

Digamos, por exemplo, que o autor estudou a sensibilidade, linearidade e dependência angular de um dado detector. Nesse caso, o autor pode preferir descrever na metodologia cada um desses experimentos detalhadamente, começando pelos equipamentos usados, mas incluindo os detalhes e a sequência de como esses equipamentos foram usados.

No analogia com o carpinteiro, ele descreveria na metodologia não apenas as ferramentas usadas, mas como as ferramentas foram usadas para construir cada objeto. Na seção de resultados ele descreveria apenas os objetos produzidos e suas características.

Se for esse o estilo, organize a metodologia (e.g. Seção 2) em sub-seções de acordo com o experimento, como por exemplo:

2.1.Detector

2.2.Determination of Sensitivity

2.3.Determination of Signal Linearity

2.4.Determination of Angular Dependence

2.5.Etc.

A seção de linearidade (seção 2.3) contém, por exemplo, uma descrição detalhada de como os dados foram obtidos:

“The linearity of the detector was determined by exposing it to light with 255 nm wavelength from a deuterium source, modifying the irradiance at the detector position using neutral density filters (model, manufacturer). The neutral density filters were combined to obtain irradiance values between 10 mW/cm2 and 500 mW/cm2. The detector reading was corrected for the background reading when the light source was off.”

A desvantagem desse tipo de estrutura é que o procedimento é apresentado em uma seção (metodologia) enquanto os resultados são apresentados em outra seção (resultados). Isso obriga o leitor a ler a seção de metodologia para entender os resultados, mesmo que ele não esteja interessado nos detalhes.

Não só isso. Como todos os experimentos foram descritos primeiro, e os resultados são só apresentados depois, é difícil entender os resultados sem ter que consultar novamente a seção de metodologia o tempo todo. Na minha opinião é importante que o artigo possa ser lido de forma linear sem prejudicar o entendimento. (Por exemplo, deve-se sempre evitar referir-se a uma seção que aparece posteriormente no artigo.)

Talvez o tipo de investigação demande essa forma de apresentação. No entanto, considere as possibilidades e identifique a que é mais adequada, isso é, a que permite uma comunicação mais clara e inequívoca do conteúdo científico.

Outras sugestões para a metodologia

  1. Para equipamentos comerciais, indicar o tipo de equipamento, modelo, e fabricante. Em geral costuma-se indicar a cidade e país do fabricante, mas para grandes empresas globalizadas (e.g., Hamamatsu), eu tenho dúvidas de que esse tipo de informação é relevante.
  2. Evite detalhes irrelevantes que não afetam os resultados, como, por exemplo, o programa usado para fazer um gráfico.
  3. Evite descrever o fundamento da técnica (por exemplo, qual o fundamento da técnica de difração de raios X). Se isso tipo de descrição for realmente necessária, ela deve estar na introdução do artigo e não na metodologia.

Tenha também em mente que a discussão apresentada aqui não é exaustiva e certamente cada área de pesquisa ou tipo de investigação pode exigir diferentes estruturas de metodologia. Independentemente do estudo, a ênfase deve ser na clareza e precisão do texto, como em todo texto científico.

REFERÊNCIA:

AQUINO, Italo de Souza. Como escrever artigos científicos: sem “arrodeio” e sem medo da ABNT. São Paulo: Saraiva, 2010.

Ciência prática – WebSite: acessado 29.05.2014

http://cienciapratica.wordpress.com/2011/11/02/o-que-escrever-na-metodologia/

Texto elaborado por:

Eduardo Yukihara

Eduardo G. Yukihara é Professor Associado na Oklahoma State University. É bacharel (1995) e doutor em Física pela Universidade de São Paulo (2001), tendo sido orientado pela Profa. Dra. Emico Okuno. Sua produção científica inclui mais de 50 artigos publicados em revistas científicas internacionais e co-autoria do livro “Optically Stimulated Luminescence: Fundamentals and Applications”. É membro do conselho editorial da revista Radiation Measurements e faz revisão de manuscritos regularmente para mais de 15 revistas científicas, incluindo Medical Physics, Radiation Measurements, Nuclear Instruments and Methods in Physics Research, Journal of Luminescence, Physics in Medicine and Biology e Physical Review B.

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